Tvon, pseudónimo literário, tem orgulho em dizer que é “mulher” e “preta”. Veio para Portugal há 25 anos, mas ainda lhe perguntam de onde é quando olham para a cor da pele. Sina igual têm os afrodescendentes nascidos em Portugal, vistos como estrangeiros no seu próprio país. “Um Preto Muito Português”, livro que lançou no ano passado, é o seu grito de revolta contra o preconceito.

«Sou filho de cabo-verdianos que há muito residem em Portugal. Sou neto de cabo-verdianos que nunca conheceram Portugal. Sou bisneto de holandeses que mal conheceram Portugal. Sou bisneto de africanas que muito ouviram falar de Portugal. E de onde sou eu? Eu até sou nascido em Lisboa, mas sou tão tido como estrangeiro. Não por minha opção, no princípio, mas depois com o tempo, com as pessoas, apercebi-me de que era um dos inúmeros lisboetas não considerados alfacinhas. O meu nome é João mas eu conheço-me como Budjurra, ainda que este não esteja no meu BI [Bilhete de Identificação] Amarelo, esse documento que me foi tão difícil obter.»

Assim começa a história de Um Preto Muito Portugues, livro lançado com a chancela da Chiado Editora, no final de 2017, e que aborda as questões de identidade dos afrodescendentes que vivem em Portugal. No epicentro de tudo, o cabo-verdiano Budjurra, a personagem principal, conta o que é viver numa sociedade que o trata como fazendo parte de um grupo aparte, de uma minoria, esquecendo as suas especificidades pessoais, a sua própria identidade.

Racismo, descriminação, estereótipos, o desejo de ser tratado como igual, sem olhar para a cor da pele. Eis o que é aflorado, de um ponto de vista bastante pessoal.

Tvon, o nome de guerra da autora, nasceu em Luanda, capital de Angola, há 37 anos. “As pessoas costumam perguntar-me: ‘Tendo tu nascido em Angola, porquê o título Um Preto Muito Português? Tu não és uma preta portuguesa, és uma preta africana.’”

O que dizer quando nos confrontam com estas palavras? “Fico sempre com aquele bichinho, em que me interrogo sobre o porquê de ter de responder a essa pergunta. Vim com 12 anos para Portugal, mas sempre tive pessoas a perguntar-me de onde eu sou. Qual o motivo, afinal, para eu não poder ser daqui? Isso sempre me fez confusão, o que me leva a responder muito contrariada, porque, realmente, eu não sou de Portugal, mas podia perfeitamente ser de cá. Tenho primos que já nasceram em Portugal e que ouvem muito essa pergunta. Eu sempre convivi com pessoas que, sendo pretas, nasceram cá.”

Daqui surgem consequências, uma “revolta” que nasce e começa a crescer dentro dos afrodescendentes, começa por dizer Tvon, quando se é constantemente interrogado sobre as nossas origens, a terra de onde somos, como se a cor da pele fosse, por si só, um passaporte que define nacionalidades ou grupos sociais e étnicos. “Essas pessoas podem não virar-se contra a sociedade em que estão, mas não se sentem encaixadas em lado algum. Sentem-me mal com elas mesmas.”

O que Telma Marlise Escórcio da Silva… perdão, a escritora Tvon nos diz, em entrevista, é precisamente aquilo que tenta contar no seu livro, vestida com a pele do cabo-verdiano Budjurra, ou João, para os que preferem um nome mais português – afinal, são várias as identidades que é obrigado a assumir, ao longo da vida.

Lê-se: «Não vivo num daqueles bairros a que eles chamam de problemáticos, mas eu sou um ser deveras problemático. Sou problemático porque não me enquadro em nenhum dos cenários que as estatísticas me querem meter. Eu até me licenciei, eu até falo o português conveniente. Ninguém sabe como lidar comigo, não se sabe se sou Preto o suficiente ou se ando a tentar ser Branco inconscientemente. O que é correcto notar em mim é que sou amigo de toda a gente, não com isso dizer que para o ser abdico de quem sou. Sou o amigo homem, o amigo preto, o amigo português… de toda a minha gente. Dou-me com pretos, com brancos, com ciganos, sentindo-me confortável com todos eles. Naturalmente, identifico-me mais com os que apresentam a mesma tez do que eu. Talvez por imposição social, pois não me esqueço do episódio em que a minha Professora de História me disse que o grupo sentado no fundo da sala tinha mais a ver comigo do que os outros. Hoje eu sei que, por acaso, nem tinham. A maioria tinha vindo da Guiné e de Angola, tinham outras histórias, não conheciam bem Lisboa. Não faziam ideia de quem jogava no Sporting, nem achavam correcto os alunos falarem ao mesmo tempo que a Professora, como eu e os outros fazíamos.»

Existe vitimização?

A inspiração para escrever o livro surgiu de todas as experiências que foi vivendo, mas os restantes ingredientes essenciais, que deram forma à obra, também brotaram dos testemunhos que os seus amigos, nascidos em Portugal e com aquele distintivo que é a pele negra, lhe foram relatando ao longo do tempo.

“Estas pessoas com quem eu cresci, assim como as que já leram o livro e me deram um feedback, dizem que eu consegui entrar na cabeça delas, conectam-se com o que conto, pois também elas sempre ouviram as velhas perguntas que referi: ´És de onde? Mas tu até nem és muito escuro?’”

Mas esta história, tanto a do livro como a da realidade na qual se baseia, ainda tem muito pano para mangas.

Conforme explica o psicólogo social Jorge Vala, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em entrevista ao jornal Público, um português de pele branca parece levar menos tempo a formar uma opinião sobre alguém de pele negra do que sobre um branco. Dito de outra forma, uma pessoa branca, a crer num estudo experimental em que é co-autor, realizado a um universo de 40 estudantes universitários portugueses, não consegue ver um negro como sendo uma pessoa com identidade própria, com especificidades que o tornam num cidadão único, acabando antes por associá-lo a um grupo. Segundo Jorge Vala, estas conclusões são suportadas por outras investigações.

Pior. Num estudo inserido no programa de investigação Atitudes Sociais dos Portugueses, com base num inquérito do European Social Survey, que questionou 40 mil pessoas com mais de 15 anos, em 20 países, Portugal surge apontado como tendo um “alto índice de racismo”, salienta, também, o jornal Público.

Eis, portanto, um dos temas que, incontornavelmente, Tvon acaba por explorar. Há racismo em Portugal, mesmo que, muitas vezes, a população branca portuguesa nem se dê conta que está a veicular preconceitos e estereótipos racistas.

“Há muita gente que acha que nos vitimizamos ao máximo”, critica a escritora. “Metam-se uma semana na nossa pele, e quero ver se continuam a dizer isso”, desafia.

“Imaginem, tal como acontece com os meus amigos, que estão todos os dias a ouvir comentários sobre a cor da pele. O que para uns pode ser visto como uma piada inofensiva, para outros não é. É preciso ter sensibilidade para perceber que não tem piada gozar com a característica de uma pessoa. Estás num grupo e tens de ter um amigo que, por ser preto, é chamado de Conguito? Mas porquê? Desculpem, mas isso não faz sentido. Há um problema, não se pode aceitar, de ânimo leve, que se diga isto, com toda a carga histórica que tal carrega.”

Na prática, a que pode isso conduzir? “Se formos sempre tratados, em criança, como o amigo escurinho, o amigo Conguito, nunca seremos e nunca nos sentiremos iguais aos outros, quando aquilo que queremos, quando somos mais novos, é integrar-nos.”

«Se não fosse a cor da pele…»

Na sua bagagem universitária, Tvon traz a licenciatura em Estudos Africanos, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, assim como um mestrado em Serviço Social, pelo ISCTE-IUL.

Já agora, um segredo. Inicialmente, Tvon andou pelos meandros da música Hip-Hop, quis fazer nome no seu seio – ideia mais tarde abandonada –, daí que o esboço inicial de Um Preto Muito Português tenha começado sob a forma de rimas assentes nesse género musical, muito usado pelos afrodescendentes para as suas críticas sociais. Mas era tanto o que havia por dizer, tão grande era a complexidade do que estava em causa, que as linhas multiplicaram-se e transformaram-se em páginas, com estas, depois, a transformarem-se num livro que quis ver lançado para os escaparates.

Uma publicação que, conforme assente a autora, surge como um oásis no deserto. O oásis, aqui, é um livro escrito em português e lançado em Portugal por uma afrodescendente, debruçando-se sobre o racismo e a descriminação que acontece no país, sobre a realidade das periferias da grande cidade do país, Lisboa. O deserto é a total ausência, no universo literário de Portugal, de histórias, ficcionais e não-ficcionais, escritas pela mão de quem vive, no dia-a-dia, descriminação por causa do seu tom de pele.

“Sou, no entanto, um pouco diferente dos outros. Tive uma estrutura familiar muito forte. A minha avó ou a minha mãe nunca me deixaram chorar só porque na escola os meninos disseram-me isto ou aquilo”, confessa. “Elas diziam-me: ‘Tu és assim. És preta, és negra. Tens de ter orgulho das tuas raízes.’ Daí nunca ter sentido o que muitos amigos meus sentiram. Alguns chegaram ao ponto de terem vergonha e não quererem ir para a escola, porque eram gozados, porque faziam queixa à professora do que lhes diziam… mas a queixa nunca dava em nada, ficando tudo em águas de bacalhau. E é assim que a situação acaba por perpetuar-se.”

Sejamos factuais. A nível científico, não há qualquer evidência que apoie a existência de raças humanas, ou seja, de diferenças fundamentais entre os seres humanos. Não existe um ADN para pessoas de pele negra e outro, diferente, para as de pele branca. Há características genéticas associadas a determinadas populações de humanos, é verdade, mas elas não lhes são exclusivas. O ser humano adaptou-se às diferentes regiões do globo, mas essas adaptações – a pele negra, por exemplo, contém mais melanina e garante uma maior protecção aos raios ultravioleta – consistem, somente, em disparidades que ocorrem dentro de uma mesma espécie: o homo sapiens.

Já agora, convém recordar que o paradigma científico prevalecente nos diz que, há 40 mil anos, homens e mulheres de pele escura e anatomicamente modernos saíram de África para popular a Europa. Antes deles, grupos de humanos semelhantes já tinham partido de África para se espalhar por outros continentes: migraram para o Sul da Ásia há 70 mil anos e foram para a Oceânia há 50 mil anos.

Tvon parece ter alguma razão quando escreve que, ao fim e ao cabo, somos todos um pouco mestiços:

«Eu acredito que todo o ser humano é mestiço. Uns vêem-se na tez, outros nas feições, já ninguém é puro. Tenho um amigo de etnia Mandinga, da Guiné, escuro, que tem um primo Sueco, pálido como a neve, e, vendo bem, eles até são parecidos. Ambos têm um nariz muito comprido, têm os lábios finíssimos, são exageradamente altos e o formato das cabeças é idêntico. Senão fosse pela diferença de cor, poderia dizer que são irmãos.»

(SAPO)

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