Na Escola Primária Chigunguline, no distrito da Manhiça, alunos da 1ª e 2ª classes começam a quebrar as barreiras de aprendizagem causadas pela língua portuguesa, usando as línguas changana e ronga para aprender.

Entre árvores de acácias, nos arredores das residências, na escola, desprovida de muro de vedação, os alunos, com idades compreendidas entre os sete e os dez anos, estudam nas línguas maternas, changana e ronga.

Eles fazem parte de uma geração que tem o privilégio de estudar na sua língua materna, vislumbrando-se, futuramente, uma geração capaz de ler e escrever fluentemente nas línguas changana e ronga.

Armando Bondzane, de 10 anos, faz parte do grupo destes alunos. Em 2015 deixou a África do Sul, onde residia e estudava, sob custódia de seu pai, para viver em Moçambique. Quando chegou na Manhiça, terra natal de seu pai, deparou-se com novas línguas, nomeadamente, português e changana.

“Lá, na escola em que eu frequentava, estudava em inglês e quando cheguei aqui deparei-me com duas línguas: português e changana”, disse o aluno à AIM.

Segurando um livro nas mãos, ele diz que embora o changana não fosse muito complicado, adaptar-se a nova língua foi algo difícil.

Ele diz que ficou feliz quando começou a frequentar a escola em Moçambique e apercebeu-se que, numa primeira fase, não teria que estudar na língua portuguesa.

“Na África do Sul estudava em inglês”, disse Bondzane explicando que, gradualmente, vai-se esquecendo daquela língua.

Com o reforço ao programa de ensino bilingue financiado pela Ajuda de Desenvolvimento do Povo para o Povo (ADPP), Bondzane viu uma barreira quebrada.

“É muito bom estudar na mesma língua que falo em casa. Gosto. Isso facilita-me bastante”, disse o aluno.

Bondzane é exemplo de um aluno que teve que se reinventar e se adaptar a novas línguas. Como ele, estão espalhadas várias crianças pelo país que têm dificuldades de assimilação de matérias escolares na língua portuguesa.

Falando durante as comemorações centrais do Dia Internacional da Língua materna, assinalado na quarta-feira, o Vice-ministro da Educação e Desenvolvimento Humano, Armindo Ngunga, disse que o facto de alunos estudarem nas suas línguas maternas, também vai ajudar a preservar a sua identidade cultural.

“Vai permitir que os alunos assimilem, por outro lado, as matérias da melhor forma possível. Estudar na sua língua materna é, sem dúvida, uma vantagem e esse é um esforço do governo moçambicano.”, acrescentou.

A gestora da componente de literacia da ADPP, Olívia Francisco, disse que no âmbito do programa da sua instituição, um total de 63 escolas dos distritos de Magude, Moamba, Manhiça e Matutuine foram abrangidas pelo projecto que iniciou ano passado.

“Nós reforçamos as aulas do ensino bilingue nestes distritos, oferecendo livros nas línguas rongas e changana que são feitos em coordenação com o Ministério da Educação.”

Explicou que os livros não são oferecidos aos alunos, “como forma de garantir que outros tenham a oportunidade de usar os mesmos.”

Referiu que as aulas nas línguas maternas são realizadas da 1ª a 3ª classe. Durante o mesmo período o aluno apenas aprende a falar na língua portuguesa.

“Na quarta a criança tem a língua portuguesa, mas da 1ª a 3ª os alunos aprendem a língua na oralidade e não a ler e escrever”, referiu.

Instituído em 1999 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), o Dia Mundial da Língua Materna é comemorado em todos os seus países membros, com o objectivo de proteger e salvaguardar as línguas faladas em todo o planeta.

Em mensagem para a efeméride, a directora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, defendeu políticas que valorizem a riqueza linguística, incluindo por meio da preservação e promoção de línguas indígenas.

A agência da ONU recomendou o uso desses idiomas desde os primeiros anos da educação formal, bem como sua utilização nos espaços públicos e na internet.

“Uma língua é muito mais do que um meio de comunicação, é a própria condição da nossa humanidade. Nossos valores, nossas crenças e a nossa identidade estão incorporadas nela. É por meio da língua que nós transmitimos nossas experiências, nossas tradições e o nosso conhecimento. A diversidade das línguas reflecte a riqueza incontestável da nossa imaginação e dos nossos modos de vida”, afirmou a chefe do organismo internacional.

Descreveu a variedade linguística como um “componente essencial do património imaterial da humanidade”, mas alertou: essa herança está em perigo. “A cada duas semanas, desaparece uma das línguas que existem no mundo e, com ela, se vai parte da nossa história humana”, lamentou a dirigente.

(SAPO)

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