Nos próximos três meses, Israel pretende forçar milhares de requerentes de asilo africanos a deixar o país. Os imigrantes têm de escolher entre sair voluntariamente e receber 3500 dólares ou ir para a prisão.

“É um momento muito assustador e muitas pessoas entraram em pânico”, diz Ghebrihiwet Tekle. O eritreu de 37 anos pediu asilo em Israel e agora trabalha no escritório da “Linha de Apoio a Refugiados e Migrantes”, uma organização não-governamental israelita com sede em Tel Aviv. É tradutor de tigrínia, uma língua falada na Etiópia e na Eritreia.

O ambiente aqui é sombrio. No início do ano, a Agência de Imigração e Fronteiras de Israel lançou uma campanha controversa. O objectivo é convencer requerentes de asilo da Eritreia e do Sudão a ir para outro país. Se não o fizerem, serão detidos. Têm agora até final de março para tomar uma decisão.

No início de janeiro, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, elogiou o plano. “Os invasores têm uma escolha fácil”, disse Netanyahu. “Ou cooperam connosco e deixam o país de forma voluntária, humana e legal, ou teremos de usar outros meios à nossa disposição”.

Apesar das fortes críticas de grupos de direitos humanos, Netanyahu quer dar um passo adiante, de acordo com o jornal Ha’aretz. Daí que as expulsões forçadas sejam uma possibilidade que está a ser considerada, tendo em conta a sobrelotação nas prisões e os elevados custos. No entanto, funcionários israelitas já descreveram os planos de expulsões forçadas como “irrealistas”.

A maioria das pessoas que fazem parte da comunidade eritreia e sudanesa em Israel sente-se extremamente vulnerável, de acordo com Ghebrihiwet Tekle, que conhece bem as histórias e os problemas dos imigrantes. “Dizem que certos grupos não terão de sair do país. Mas quem sabe? Quando terminaram um grupo, talvez depois venham ter connosco. Não há segurança”, afirma.

Vivem em Israel cerca de 37.000 eritreus e sudaneses. Imigraram entre 2006 e 2012, antes de o país ter construído uma barreira de segurança de alta tecnologia ao longo da Península egípcia do Sinai.

Estatuto de refugiado não é para muitos

Até ao momento,  a maior parte dos imigrantes africanos não recebeu o estatuto de refugiado. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), apenas oito eritreus e dois cidadãos sudaneses foram reconhecidos como refugiados em Israel. Todos os outros receberam uma autorização de residência temporária, que tem de ser renovada de três em três meses.

Da próxima vez que forem renovar a sua autorização de residência, os que ainda não solicitaram asilo serão agora convidados a aceitar um bilhete de avião gratuito e 3500 dólares (2909 euros). Se se recusarem a partir, enfrentam a ameaça de ir para a prisão. As pessoas que se encontram no centro de detenção de Holot, no sul de Israel, também estão a ser pressionadas a sair do país.

Há relatos de que, até ao momento, foram feitas muitas exceções: famílias, crianças, pessoas com mais de 60 anos, vítimas de tráfico humano e pessoas que pediram o estatuto de refugiado não deverão ser afetadas.

“A atribuição de asilo em Israel é inferior a 1%. Na Europa, a taxa média de eritreus reconhecidos como refugiados é de cerca de 90%”, diz Tamara Newman, da “Linha de Apoio a Refugiados e Migrantes”.

Quando chegaram ao país, os sudaneses e os eritreus receberam “proteção de grupo”. Mas também foram informados de que não deveriam pedir asilo. Segundo Tamara Newman, a apresentação de pedidos de asilo individuais foi difícil no ano passado. “Só existe um escritório em todo o país onde as pessoas podem entregar os pedidos”, explica. As pessoas ficavam na fila a noite toda para poderem ser atendidas às 07h00 da manhã seguinte. “E deixavam entrar 100 pessoas todos os dias”, conta Newman.

Incerteza constante

Ghebrihewet Tekle apresentou a sua candidatura há três anos e ainda está à espera do estatuto de refugiado. Fugiu da Eritreia depois de ter sido preso por participar em protestos quando era estudante. Mais tarde foi obrigado a cumprir serviço militar durante três anos, num país que, de acordo com grupos internacionais de defesa dos direitos humanos, é responsável por graves violação dos direitos humanos.

“Lá não tinha futuro. Então, decidi correr o risco de sair do meu país”, conta Ghebrihiwet Tekle. Primeiro, esteve na Etiópia, onde morou num campo de refugiados durante um ano. Seguiu depois para o Sudão e mais tarde pagou a traficantes para atravessar o Sinai, até chegar finalmente a Israel em 2007.

O exército israelita cuidou dele nos primeiros dias. Alguns recém-chegados foram enviados para a prisão, outros receberam um bilhete de autocarro para Tel Aviv. Muitos instalaram-se nas áreas mais pobres da cidade, o que criou tensões com os moradores locais.

Em vez de serem considerados refugiados, os africanos geralmente são tratados como “intrusos” e “imigrantes económicos”. Ghebrihewet Tekle diz que está grato e feliz por ter conseguido segurança em Israel. Mas agora não se sabe o que irá acontecer. A partida voluntária não é uma opção para o tradutor eritreu. “Preferia ir para a prisão até o meu país voltar a ser seguro”, afirma. O Ruanda ou o Uganda também não são alternativas para ele. “Não me sinto seguro lá”.

(AIM)

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