Mossul luta para superar trauma da presença do “Estado Islâmico” e restabelecer diversidade de crenças existente na cidade antes da invasão dos extremistas. Jovens seguidores do islã se engajam em favor de cristãos.

Bandar Faris participa do mutirão de reconstrução do mosteiro de São Jorge, nos arredores de Mossul, no Iraque. O jovem muçulmano ajuda amigos a reparar os danos causados ​​pelos combatentes do grupo extremista “Estado islâmico” (EI). Faris e outros jovens voluntários recolhem as pedras e entulhos que cobrem o chão.

É uma corrida contra o tempo, porque o Natal se aproxima. E até lá, os jovens querem ter feito pelo menos metade do trabalho de restauração do mosteiro. Pelo menos o suficiente para que seus vizinhos cristãos possam celebrar no local o nascimento de Cristo. Para coroar seus esforços, eles trazem uma árvore de Natal e a decoram.

“Mossul é uma cidade diversificada, ela não é caracterizada por uma determinada seita ou religião”, diz. Pelo contrário, a cidade reflete toda a diversidade étnica e religiosa do Iraque. “É assim que ela deve continuar sendo no futuro. Depois de ter sido libertada do EI, Mossul tem que recuperar sua antiga diversidade.”

Faris tem esperança de que quando eles, enquanto muçulmanos, reconstruírem as igrejas, os cristãos que fugiram do EI se sentirão encorajados para retornar e ouvir a mensagem de convivência pacífica. “É por isso que queremos preparar o mosteiro para os feriados que se aproximam e as festividades que acontecem neles. Nossos vizinhos cristãos acham a ideia muito boa.”

“Em nome do bem”

Faris sabe o que significa viver sob o domínio do EI. Quando os jihadistas assumiram o poder em Mossul, a família dele permaneceu na cidade, apesar de todas as dificuldades. A mãe, que estava com câncer, não recebeu a ajuda médica necessária e morreu.

“Durante o domínio do EI, era difícil para cristãos e pessoas de outras religiões deixarem a cidade. Muitos jovens foram mortos. Os combatentes do EI os penduraram em postes ou os jogaram de edifícios altos. Vimos cenas terríveis.”

Ao se lembrar dos tempos difíceis, o jovem se cala por um momento e faz uma pausa. Então, continua. “Depois dessas experiências, eu quero, de qualquer maneira, dar minha contribuição para que a cidade retorne à vida, após a libertação. Quero ajudar as pessoas tanto quanto possível.”

Juntamente com outros, Faris está envolvido em uma campanha para ajudar aqueles que foram afetados ou fugiram da guerra. Os jovens limpam ruas, escolas e universidades. Além disso, Faris fundou um grupo cujo nome, traduzido livremente, quer dizer “em nome do bem”. O jovem está satisfeito com o resultado.

“Somos agora quase 40 pessoas. Estamos investindo nosso engajamento pessoal, e alguns doadores nos apoiam com dinheiro. O famoso músico Naseer Shamma está ajudando a restaurar salas da Universidade de Mossul”, conta.

Refugiados cristãos retornam

A família de Ryan Adnan foi uma das primeiras famílias cristãs a retornarem a Mossul após a retirada do EI, apesar de sua casa ter sido danificada e saqueada. Agora, Adnan também apela para que outros cristãos retornem.

“A campanha para revitalizar as igrejas me dá coragem”, diz Ryan. “É uma expressão da profunda conexão entre cristãos e muçulmanos no Iraque”, acrescenta, lembrando que recentemente um amigo muçulmano de Mossul se ofereceu para ajudar a reconstruir a Igreja Ortodoxa Síria de São Jorge, na cidade de Bahsani, que fica nas proximidades. “Fiquei muito feliz, porque isso mostra que a amizade dos muçulmanos triunfou sobre o ódio do EI.”

Em 25 de dezembro, os cristãos pretendem realizar na Igreja de São Paulo uma celebração do Natal – a primeira e maior do gênero desde a retirada do EI. Nela, jovens muçulmanos também estão trabalhando para retirar os escombros da construção e decorar a árvore de Natal, segundo Omar al-Hatim, um dos jovens que querem que os refugiados cristãos retornem a Mossul.

Al-Hatim e seus companheiros fundaram, ainda durante o domínio do EI, um grupo nas redes sociais para ajudar as forças de segurança iraquianas durante a libertação. Eles se concentraram principalmente na ajuda humanitária.

Ele também foi um dos primeiros a começar a reconstruir igrejas no mês passado, incluindo a Igreja do Coração de Jesus no vilarejo de Tel Keppe, a segunda maior igreja do Oriente Médio. O grupo passou muito tempo limpando a igreja e removendo pichações do EI nas paredes, que pediam para que os cristãos fossem punidos e mortos.

“Havia também um grupo de música na igreja, que tocava lá para chamar o espírito da vida”, diz Omar. “Até crianças nos ajudaram a limpar.” O mutirão recebeu muita atenção local e da mídia. “Muitos cristãos saudaram nossa iniciativa”, ressalta Omar.

Música contra o legado do EI

Os músicos do grupo Uttar Narkal tocam seus instrumentos – oud, violino e violão – nas ruínas da Igreja do Sagrado Coração.

“O EI combateu a arte e matou. Matou artistas de Mossul e esmagou os instrumentos deles”, diz Khalid Walid, um dos fundadores do grupo. “É por isso que queremos contribuir, através da nossa apresentação, para o renascimento das igrejas através da música. E estamos convencidos de que música é alimento para o espírito e para a vida, assim como uma mensagem de amor e paz.”

Walid também relata as muitas reações positivas por parte dos cristãos iraquianos. E o grupo já tem agendado um concerto em outra igreja. Mas a normalidade ainda está muito distante.

“Todas as igrejas em Mossul estão fechadas”, diz o padre Thabet, da igreja de Karamlis. “Algumas casas de Deus ficaram severamente desfiguradas. Em algumas delas, ainda há corpos dos combatentes do EI”, lamenta. Ele conta que igrejas foram saqueadas, tiveram seus fundamentos derrubados e símbolos cristãos destruídos.

“Até agora, não recebemos nenhuma ajuda do governo ou de outras fontes para que possamos reconstruir as igrejas”, frisa. Mas ele elogia o engajamento dos jovens muçulmanos. “É um sinal da convivência e da fraternidade entre cristãos e muçulmanos.”

(Farah Adnan)

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