Detenção do líder de uma das milícias árabes que operam nesta região do Sudão pode abrir novo capítulo de violência, dizem especialistas.

O líder do clã Mahamid, do grupo étnico Reizegat – a maior comunidade árabe do Darfur -, Musa Hilal, foi detido na semana passada pelas forças de combate à insurgência no Sudão na sua cidade natal, Mustariaha, após confrontos violentos que resultaram em várias vítimas mortais. Para os analistas, com a detenção do antigo conselheiro do Presidente do Sudão, Omar al-Bashir, Cartum aperta o cerco à insurgência na região, mas pode estar perante um novo capítulo de violência.

“É um momento perigoso”, diz Magnus Taylor, investigador do International Crisis Group, à agência de notícias France Presse.

Hilal foi capturado por uma unidade das Forças de Apoio Rápido, liderada por outros membros dos Reizegat. “É o início dos combates internos, é apenas o começo”, alerta Ahmed Adam, investigador da Universidade de Londres. “Sem dúvida, a detenção de Hilal terá impacto na segurança e estabilidade do Darfur”, acrescenta.

Do combate aos rebeldes ao conflito interno

No início do conflito na região, em 2003, as milícias árabes lutaram ao lado das forças do Governo contra os rebeldes das minorias étnicas. Na altura, Musa Hilal liderava a milícia árabe Janjaweed, aliada do Governo – homens armados montados a cavalo que percorreram o Darfur pilhando aldeias e combatendo rebeldes que tinham pegado em armas contra o Governo de maioria árabe de Cartum, acusando as autoridades de marginalização política e económica.

Dados das Nações Unidas apontam para centenas de milhares de mortos e 2.5 milhões de desaparecidos. As Forças de Apoio Rápido foram também usadas para reprimir os rebeldes numa brutal operação contra os insurgentes lançada por Omar al-Bashir. Em 2007, as Nações Unidas e a União Africana enviaram uma força conjunta para o Darfur com o objetivo de estabelecer a paz nesta região sudanesa.

“A anterior dinâmica no Darfur era de violência entre milícias e grupos rebeldes do Darfur. Agora, o maior perigo é a violência entre as milícias árabes”, sublinha Magnur Taylor.

Sanções internacionais

Hilal está proibido de viajar pelas Nações Unidas e o seu nome surge numa lista de pessoas sancionadas por “atrocidades contra direitos humanos” durante os primeiros anos do conflito. O próprio chefe de Estado sudanês é acusado de genocídio e crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional, embora negue todas as acusações.

A actuação de Cartum contra as minorias étnicas rebeldes foi também um factor decisivo para a manutenção do embargo comercial imposto por Washington ao Sudão em 1997. A 12 de outubro, os Estados Unidos levantaram o embargo, justificando a decisão com uma queda generalizada da violência no Darfur desde o ano passado.

Cartum insiste que o conflito terminou e lançou uma campanha para desarmar as milícias que operam no Darfur. Mas os analistas afirmam que o desarmamento visa sobretudo enfraquecer Hilal – que, de acordo com um relatório da ONU, controla várias minas de ouro no Darfur – depois de divergências com Cartum.

Travar o “todo-poderoso”

A campanha do Governo “visa, sobretudo, travar ou aniquilar Musa Hilal e atinge também outras comunidades negras não-árabes e os deslocados internos”, considera Ahmed Adam. O investigador da Universidade de Londres lembra ainda que foi o Governo de Cartum que inicialmente forneceu armas às milícias.

“Musa Hilal foi criado por Bashir para levar a cabo a contra-insurgência no Darfur, mas, recentemente, Hilal estava a revelar-se politicamente ambicioso. Não há uma história de amor entre os dois homens”, conclui o analista. Cerca de 10 mil combatentes pró-Governo liderados pelas Forças de Apoio Rápido foram mobilizados para deter Hilal, que, por sua vez, lidera uma força de 3 mil homens.

Da esquerda para a direita: Sheikh Tamim bin Hamad al-Thani, emir do Qatar, Faustin Touadéra, Presidente da República Centro-Africana, Omar al-Bashir e Idriss Déby, Presidente do Chade numa cerimónia para assinalar o fim do conflito no Darfur, em 2016

Com a sua detenção, Cartum envia um sinal à comunidade internacional: “controla” Darfur, diz Magnus Taylor, do International Crisis Group. “Hilal era o ‘peixe graúdo’ que eles queriam eliminar. Viam-no como alguém que estava a tornar-se ‘todo-poderoso’”, sublinha.

Apesar da diminuição da violência no Darfur, um acordo de paz permanente entre Cartum e os rebeldes parece ser inatingível. Ainda assim, a missão de paz da União Africana e da ONU, a UNAMID, está a ser reduzida.

A detenção de Musa Hilal numa altura em que os capacetes azuis começam a retirar-se poderá significar um recuo nos desenvolvimentos positivos no Darfur, segundo um diplomata europeu. “Isto é muito problemático. Musa Hilal é um sheik importante com influência tribal”, disse o diplomata à AFP sob condição de anonimato. “Isto pode levar a muita coisa, muitas coisas negativas. E a UNAMID não será capaz de travar tudo”.

(DW)

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