Saada Youssef, do grupo étnico Oromi, viveu sem problemas durante anos no seio da comunidade Somali, no nordeste da Etiópia, até recentemente, quando as autoridades a mandaram abandonar aquela terra.

.
Enquanto estávamos no camião, as pessoas nos apedrejavam,” disse ela à agência noticiosa AFP, recordando a maneira como escapou durante a viagem num camião enviado para evacuar os habitantes da etnia Oromi da vizinha região de Somali.

Saada deve a sua expulsão à desconfiança que se criou entre os Oromi e os Somali, dois dos principais grupos étnicos na Etiópia, na sequência de várias semanas de violentos confrontos em Setembro ao longo dos cerca de 1.000 quilómetros de fronteira entre as duas regiões administrativas.

“E difícil estimar os níveis de violência e os respectivos danos por causa de restrições de acesso às zonas mais afectadas, mas o governo de Adis Abeba calculou recentemente que os confrontos já fizeram várias centenas de mortos.

Em Setembro, Saada, de 35 anos de idade, refugiou-se num edifício abandonado em Adama, a sul de Adis Abeba, e a mais de 550 quilómetros de Wachale, uma localidade do leste do país, onde ela vivia, na região Somali.

Estes violentos actos de assassínio evidenciam, uma vez mais, as tensões existentes no sistema etíope de governação, chamado de “federalismo étnico”.

Este sistema foi concebido para dar um certo grau de autonomia às várias comunidades no país – dividido desde 1995 em nove regiões administrativas – e os seus dectractores dizem que está a contribuir perigosamente para exacerbar os sentimentos de etnicidade e para “etnicizar” velhas disputas de terra no segundo país mais populoso de África (mais de 100 milhões de habitantes).

Para além da violência entre Oromos e Somalis, o regime etíope enfrentou, em 1995 e 2016, um grande movimento de manifestações anti-governamentais nas regiões de Oromia e Amhara (no norte), cuja repressão, pelas forças de segurança provocou a morte cerca de 1.000 pessoas, segundo as autoridades.

Embora os acontecimentos que despoletaram a violência entre os Oromi e os Somali não sejam claros, as suas consequências são trágicas.

Para além das perdas humanas registadas pelo governo, a ONU contabilizou mais de 43.000 habitantes que foram obrigados a abandonar as suas residências, um número sub-estimado, segundo as autoridades administrativas de Oromia, que falavam à AFP em Harar, na região de Oromo, que calcula em 67.000 deslocados.

Sobreviventes dos confrontos acusam o governo de atraso no envio do exército federal para controlar o ciclo de ataques e retaliações e estão preocupados que poderá resultar numa completa separação das duas comunidades.

“Tudo isto poderá levar a uma limpeza étnica,” alertou Molu Wario, um Oromi que fugiu da violência nas redondezas de Moyale, na fronteira com o Quénia, por causa de disputa de terra que degenerou em violentas confrontações. “Ela despoletou as hostilidades e as relações nunca mais serão as mesmas entre nós”, acrescenta Wario.

Se as disputas são comuns sobre a demarcação de fronteiras administrativas ou o acesso a recursos (fontes de água, pastagens, etc.), elas raramente resultam em violência tão intensa.

As autoridades Oromis e Somalis acusam-se mutuamente de cometer atrocidades.

Os Somalis salientam um incidente em Awaday, uma localidade na região de Oromia, onde, segundo eles, os Oromi mataram 18 comerciantes Somalis, que vendiam Khat, uma popular planta hilariante na Etiópia.

Oromis que fugiram de Wachale disseram que os Somalis que os expulsaram das suas casas, munidos de armas de fogo e armas brancas, referiram-se explicitamente aos alegados ataques em Awaday.

Abdel Jabaar, de 20 anos de idade, disse que os Somalis que vieram para o expulsar disseram que “os Oromis mataram 20 Somalis em Awaday e que eles vão agora expulsar os Oromis da região de Somali.”

Outros deslocados Oromis disseram que amigos e vizinhos Somalis os acolheram quando a violência eclodiu e que era principalmente uma unidade da polícia na região de Somali, a Liyu, que era acusada pelos grupos de defesa dos direitos humanos de cometer os piores abusos.

O exército federal controla agora as estradas principais ao longo da fronteira, gradualmente restaurando a calma.

Mas para os Oromis, um regresso à região de Somali está fora de questão.

“Economizei dinheiro lá durante 20 anos e perdi tudo num só dia. Porque é que hei-de voltar?”, questionou Saada, sublinhando que “não deixei mais nada lá”.

(Africanews)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here